Hoje, lembrei dos pássaros que cativei ao longo da vida. Ao nascer, ganhei uma gaiola. Ela era bela, simples e forte. Com o tempo, foi crescendo junto a mim, não era uma gaiola comum. Fora construída quando minha poesia sequer pensava existir. Por anos mantive tal cela vazia, mas então percebi a beleza dos pássaros e sua liberdade. Quanto mais livres, mais belos me pareceram. Sempre busquei vê-los livres e assim, amá-los, no entanto por amar, acabei por tirar-lhes a liberdade. Aos poucos me cativavam, enquanto os mantinha cativos. Naquela gaiola, muitos perderam o brilho que traziam, devido aos vôos que não mais realizavam. Vi, a cada dia, o viço em suas plumas diminuir, o canto em seus corpos se acabar e a vida fugir. Então, invariavelmente, abria-lhes a gaiola e os via partir. Sempre partiam mais escuros do que chegavam, uns pela tristeza que lhes acometia ao ver minha solidão; outros, por não suportarem a idéia das grades. Somente há a certeza de que essas grades permaneceram trancadas por um longo tempo. Foram muitos os pássaros que assentaram-se em minha janela, sem jamais receberem qualquer menção de um olhar ou, quando vistos, vistos com desprezo e, às vezes, asco. No entanto, tudo ocorre como deve ser. Agora, há um pássaro em minha janela, ele está ali já há algum tempo. Parece que algo aqui lhe agrada, não sei ao certo o que é. Tento ignorá-lo mas, inutilmente, permaneço imóvel. A gaiola a minha frente permanece fechada, não penso em abri-la. Não é mais preciso, de algum modo tal pássaro me mantém cativo.
…
Talvez, finalmente, tenha ganho as asas que desejei.