No espaço finito
de um segundo
temos sobressaltos
ecoando por eras.
O tempo se acotovela
na fila para o fim.
Quem somos nós
para dizer algo?
Somos muitos segundos,
mas findamos primeiro.
Vinicius R. Serafim
Vazio
Longe
Nunca
Tudo é alheio,
A conformidade do infinito é alheia a mim.
O nada me comporta melhor,
As dimensões de um ego são suprimidas,
Compactáveis que são, inexistindo, no entanto.
A filosofia dos loucos transborda o caldeirão de meu córtex,
Esparrama-se no além de meus olhos. Não vejo minha razão,
Incomensurável e, ainda assim, inequivocamente inexistente.
Tudo é alheio
Nunca
Longe
Vazio
Vinicius R. Serafim
No sulco da pedra
Me encontro novo,
Na descoberta do tempo.
No limo da pedra
Os sons mudos,
Um céu de veludo.
No musgo da pedra
O rosto velho
Do pseudopoeta refletido.
No toque da pedra
A frieza do todo,
No todo eu sou.
Vinicius R. Serafim
Não diga do poeta:
- Morreu cantando.
Não foi uma musa
Que sorriu gritando.
Não foi colibri
Que viveu voando.
Foi mais um corvo
Que nasceu ralhando.
“Nasci de preto, me remoendo.
Nasci com dor e já sabendo,
Porque vivi estive morrendo “.
Vinicius R. Serafim
Somente o tempo nos deu a mão
Quando dançamos aquela ciranda
Na roda de fogo, o vento e o vinho,
Lavaram os corpos psicossomáticos.
Nem todos os métodos profiláticos
Apagaram o desejo manchando teu véu.
E o céu se fez sonho de olhos estelares
Seguindo as notas dançadas, escritas na alma.
E teu véu comeu meu corpo, escuro e teu.
Deitamos sonhos no colo de Deus
E meus astros... amaram os teus.
Vinicius R. Serafim
O sol se pôs a minha frente,
Enquanto olhava o leste.
Não tive razão para fechar os olhos,
Olhei o ventre do diabo, aberto entre montanhas,
Parindo uma tétrica noite.
No topo velho do monte caído,
Enterrei meu espírito no cemitério senil.
Vesti meu corpo de sangue e velas e vinhos velhos,
Nadando em nanquim “laminei” papiros e tua boca
[Inexistente, você vive?].
Dancei sobre sepulcros com ninfas, carvalhos e cães; louco dancei.
Ao passo das horas, tanto quanto estrelas e luas nuas, prata em pêlo;
Minha sombra viu-me lânguido e solícito de dor.
[Nati] Morto, acordei e bebi a boca do verme.
Não era eu e nem o sou, nunca fora tão verdadeiro.
Vesti meu mundo num cemitério, na noite e no vinho,
Vesti meu mundo como um eu.
Vinicius R. Serafim
Qual o mistério da carne?
Atrito de corpos no íntimo da certidão de ÓBITO.
O preço do sexo é alto.
ELA é dama de luxo.
Vinicius R. Serafim
Dias assim...
Vento negro, céu forte, luz in black tie
Dias como esse...
Oferecem-me cigarros feiticeiros
Que enevoariam meus medos
Eu os aceitaria
Pelo sabor da feitiçaria.
Eu transaria uma mariposa,
Para ganhar suas asas
E botar meu peito ao vento.
Free...butterfly.
Vinicius R. Serafim
Doce é a sensação
Ter a mão amada
Lá pousada... em minha mão.
Tendo elos a corrente,
Sendo notas na canção,
Pousada em teu desejo
Permanece minha mão.
Enraízam entre si,
Rêmora e tubarão
Vorazmente procurando...
Um caminho ao coração.
Dedilhando os teus dedos,
Adotando os teus medos,
Nossos toques, nossa mão.
De anjos e demônios,
É assim o coração,
No toque de teu toque
Permanece minha mão.
No toque de meu toque,
Devoro-te o coração...
Vinicius R. Serafim
O poeta escorre na mesa
O corpo virado na mesa
A boca quebrada
Pinga no chão, poemas e verve
Afogado, bêbedo...
O real lhe seca, resseca ou ressaca...
Quem dera fosse um porre logo se acabaria
Vinicius R. Serafim
Sendo formas na corrente;
Na cadência a devoção,
No verso sacrossanto
A eterna danação
Vinicius R. Serafim
Espero ter um fim
como o começar da vida,
na glória de um ventre,
colado a uma mulher.
Mulher...
animal ambíguo
[demônio, anjo]
e sociável,
especialmente entre as pernas.
Vinicius R. Serafim
Quatro paredes em um quarto,
noções difusas no gozo,
fotos perdidas na caixa.
Quatro quartos de nada
num único desejo:
apagar as dores da vida
logo ao primeiro beijo.
sigo enclausurado na partida,
caixa de sapato: a vida.
Vinicius R. Serafim
Essa é uma cidade baixa
Essa é uma cidade pequena
com pequenas mentes perturbadas
na turba alienada e incoerente
com baixos índices de genialidade
é uma baixa poça com água parada
(Á não, sangue)
Às vezes infla seu ego com concreto e aço
E cresce (mas acaba por se reduzir).
Vinicius R. Serafim
Reflexo esparso de um ego
fitando os calos do cego.
Tecido trançado na areia,
nas estrelas e telhados.
Meus gestos nodosos, calados,
refletem a dança e o talhado
dos ossos compactos.
A luz é fora,
aqui é cacto.
Suave sonda, a sombra Assoma.
Vinicius R. serafim
A simpática sombra assoma
das cavernas, risonha.
Trançando teias de assombro,
na luz do eco redondo,
se faz tremendo ribombo.
A sombra simpática assoma.
Não com0 a luz, que tomba,
prossegue tênue a sombra.
Ínfima potência sem doma.
Como casca de osso, sem dona.
Das cavernas a simpática sombra.
Vinicius R. Serafim
A solidão dos LPs,
os pés gelados
os livros jogados.
Assim se faz sombra,
passa horas molengas
sobre a dor que tomba.
Sobre o estudo inacabado
permaneço um rascunho
de vida riscada/rabiscada ao punho.
Vinicius R. Serafim
Não se fazem Lucíolas como antigamente.
Não se fez uma somente
na imensa solidão.
Tenho o prazer de ser vítima da noite.
Que se faz açoite
na minha paixão.
Então quando interrogado pelos teus olhos
.
.
.
Profundo olhar de um corvo
na sombra um abismo se faz.
Se empoleiram os anjos em teus cabelos,
deslizam os ventos no teu seio.
Foi feita labirinto de carne,
emaranhado de carvalhos e clãs do diabo.
Seria um sentido além do 6º,
retomando o ciclo do sol.
Foi vista como um sonho negro,
um morcego ou corvo, cardeal ou moxo...
Vinicius R. Serafim
Discreta noção da verdade,
nativa pantera de jade.
Notívaga, diurna, caleidoscópica.
lógica, lógica. irrefreável lógica.
Escorre aos litros é cósmica
Sem litros, sem caldo, sem gole
Lógica, lógica, fome...
Vinicius R. Serafim
Retomo a sombria hora
segundos cortados
Horas de fluxos contrários
relógios obtusos
Que tempo?
Aspiro as eras com calma
tenho que fazê-lo
O espaço preenche o pulmão,
infinito espaço compacto
Vinicius R. Serafim
As fotos vão embaladas na sarjeta,
barcos vikings enterrando mágoas mouras.
Descem os pesares lodo abaixo,
não os paro.
Navegar é preciso.
Ir para longe é obrigatório.
Voam as cartas pela janela, suas palavras estão curadas,
pois que voem.
Deixem minhas asas, desbravem o céu como Dumont.
Voem para o sol e queimem...
Vinicius R. Serafim
O céu toca a terra
E não move mais.
São longas as horas.
E não move mais.
A sombra desnuda o céu,
é infinita visão de uma reflexão.
Circulam os tolos espectros,
pelo cosmo vão estrelas,
- vagalumes vegetativos!-
luminando centelhas de algo.
A carne procura a carne.
A depravação da carne.
São bocas que matam,
elas fervem o sangue, o sexo.
Bocas drenam a alma.
E vivem carrascas...
Vinicius R. Serafim
Horas tardias, horas caladas,
horas perenes, horas escassas.
Oras?
De que vale o tempo?
Tudo flui no espaço.
Ele é infinito.
Se ele é infinito...
quem acaba sou eu.
Vinicius Rodrigues Serafim